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Livros – Infância Literária

Livros – Infância Literária

Livros – Infância Literária

Criei uma teoria um dia desses.

Começa assim.

Eu tinha dez anos de idade quando recebi do meu pai o livro Horror em Amityville, de Jay Anson, meu primeiro romance de ficção. Talvez você critique o homem por ter sugerido que seu filho pequeno lesse um livro de terror ao invés de lhe entregar Alice no País das Maravilhas, mas eu não lamento pela escolha dele. Lembro-me com precisão do medo que sentia ao passar as páginas, acendendo as luzes da casa, tremendo de ansiedade quando meus pais decidiam sair e me deixavam sozinho, mas eu continuava lendo compulsivamente, porque queria saber o que ia acontecer no final. Aquele livro me influenciou de tal maneira que continuei procurando trabalhos similares.

Stephen King. Anne Rice. Agatha Christie. Mistério e suspense.

Eu não me interessava por história água com açúcar. Eu queria ocultismo, coisas estranhas, ventos uivando nas árvores. Quando era garoto, e posteriormente como um jovem adulto, eu gostava das histórias dos adultos. Hoje em dia temos o outro lado da moeda. O mercado enche as prateleiras de contos infanto-juvenis e para o público (pseudo) hipster, vampiros com crises existenciais, lobisomens de peito raspado, adolescentes descobrindo o amor, mulheres virgens descobrindo os prazeres do masoquismo. Não tenho problemas com isso, cada um deve ler o que melhor lhe agrade, mas na minha época de descobrir a literatura “séria”, o pega pra capar, eu estava ávido por filosofia, histórias bem trabalhadas e metafísicas, Nietzsche e seu deus morto, Crime e Castigo, as minúcias de O Senhor dos Anéis, o niilismo de Clube da Luta. Eu queria ler Kafka e Anthony Burgess. Contudo, à medida que o mundo anda pra frente, que a população de pessoas maduras e idosas morre e a população de gente jovem multiplica-se, em minha opinião, a literatura vem recuando; o público infanto-juvenil, condicionado a um pensamento mecânico e cibernético ensinado nas escolas, ignora a idolatria ao pensamento, preferindo qualquer capa colorida que se encontre nas gôndolas de uma loja na esquina.

Vejo um padrão aí: no meu bairro houve um progresso em estabelecimentos comerciais, estão construindo até um teatro, mas não há livrarias. Pelo menos não livrarias decentes.

Repito que não tenho problema com isso, mas você deve concordar comigo quando digo que é triste ver um retrocesso cultural. Os últimos livros de ficção que adquiri foram escritos antes ou durante os anos 1980, e, apesar de serem brilhantes, são datados, como era de se esperar. Mesmo os grandes romances de ficção científica que descrevem com precisão assustadora um futuro equivalente ao nosso presente, já não podem mais impressionar, porque muito do que há ali já é uma realidade e não causa tanto interesse no leitor iniciante. Um exemplo é o livro Neuromancer, de William Gibson, lançado em 1984 – e que inspirou o nome desta coluna – que foi claramente o precursor espiritual para a trilogia Matrix e um pouco para o gênero cyberpunk. É um puta livro, que fique bem claro, mas muitas das maravilhas tecnológicas descritas ali já estão ultrapassadas para nós (embora outras ainda impressionem, por isso recomendo, leia!).

Estes livros deixaram um legado que, pra minha surpresa, não foi substituído. Não há um esforço em criar um novo movimento literário, um novo iluminismo. E porque não? O mundo artístico atual encontrou uma fórmula confortável no marketing e não se arrisca a sair dela e porque seria assim? É certo que o público atual faria resistência contra um movimento como este, porque com a educação que a gente recebe atualmente, com o entretenimento banalizado ao qual somos apresentados e o qual alegremente consumimos, não haveria lógica na busca pelo conhecimento. E vamos falar a verdade? Estes livros atuais, os livros para jovens adultos, são tediosos, mal escritos, de péssimo gosto e ainda mascaram filosofias como se fossem de fato códigos morais válidos, mas não falam nada demais senão: “venham, excluídos, vocês compreenderão mais sobre suas vidas medíocres nestas páginas”.

Claro.

Somente excluídos leem livros hoje em dia.

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